Bloco 1 de 5

Navegação e trabalho de carta

Navegação e trabalho de carta é uma das áreas com nota mínima de 75 %. Aqui passas da Carta de Marinheiro ao trabalho de carta a sério: medir distâncias e rumos, converter a agulha para a carta e ao contrário, calcular a estima com corrente, confirmar a posição com o que vês e verificar o odómetro, a agulha, o GPS e a sonda.

Mãos com um compasso de pontas secas e uma régua paralela sobre uma carta náutica, na mesa de cartas de uma embarcação
Fotografia gerada com uma ferramenta de imagem (ChatGPT)

Decide

Quatro situações no mar. Primeiro decides, depois lês porquê.

Compasso de pontas secas pousado na escala de latitudes da margem de uma carta náutica
Fotografia gerada com uma ferramenta de imagem (ChatGPT)

O essencial

  1. A milha e o nóUm minuto de latitude é uma milha (1852 m); um nó é uma milha por hora.
    1. Direções de 000° a 359°, a partir do norte, no sentido dos ponteiros do relógio.
    2. Proa: para onde apontas. Rumo: para onde vais. O abatimento afasta-te para sotavento.
    3. Distância = velocidade × tempo.
    Ler uma carta: latitude, longitude, milha e nó
  2. A carta de Mercator e as linhas de posiçãoUma reta na Mercator é uma loxodromia: segues-a com rumo constante e medes a distância na escala de latitudes.
    1. Para entrar num porto, usa a carta de maior escala.
    2. Linhas de posição: enfiamento (a mais exata), azimute, distância (circunferência) e batimétrica.
    3. Duas linhas perto de 90° dão uma posição; a terceira verifica-a.
    Linhas de posição: azimutes, enfiamentos e distâncias
  3. O odómetroMede a velocidade e a distância através da água; verifica-o numa base medida, nos dois sentidos.
    1. A média das duas velocidades sobre o fundo anula uma corrente constante.
    2. Fator de correção = distância real ÷ distância do odómetro.
    3. Roda de pás suja de algas faz o odómetro ler a menos.
    Navegação por estima e o odómetro
  4. Agulha: declinação e desvioLeste +, oeste −. Da agulha para a carta somas; da carta para a agulha subtrais.
    1. Verdadeiro = agulha + desvio + declinação.
    2. Agulha = verdadeiro − declinação − desvio.
    3. O desvio muda com a proa: lê-o na tabela e verifica-o num enfiamento.
    Rumo da agulha, declinação e desvio
  5. Faróis e balizagemIdentifica cada luz pela característica e, nos setores, pela cor que vês; Portugal está na Região A da IALA.
    1. Fl(3) 15s: três relâmpagos a cada 15 segundos.
    2. Os limites dos setores são azimutes verdadeiros tomados do mar.
    3. A entrar vindo do mar: encarnado a bombordo, verde a estibordo.
    Faróis, luzes de setores e enfiamentos
  6. Estima, corrente e confiançaA estima usa a proa e o odómetro; a posição estimada junta a corrente.
    1. Deslocamento pela corrente = velocidade × tempo, para onde ela corre.
    2. A confiança diminui com o tempo desde a última posição observada.
    3. Perto da costa, o que vês vem primeiro: confirma com linhas de posição.
    Corrente, abatimento e rumo a governar
  7. GPS, datum e cartas eletrónicasO GPS dá posições em WGS84; confirma o datum da carta e não confies na sobreampliação.
    1. HDOP alta, multitrajeto, interferências e antena mal posta pioram a posição.
    2. Aplica a translação indicada na carta para posições obtidas por satélite.
    3. Verifica a rota com várias ampliações e leva carta em papel.
    Navegação eletrónica: erros do GPS e carta em papel
  8. A sondaMede abaixo do transdutor, salvo se lhe configuraste um desvio.
    1. Verifica-a com o prumo de mão no mesmo sítio.
    2. Num ponto conhecido: sonda da carta + altura de maré.
    3. Bolhas de ar debaixo do transdutor dão leituras erráticas.
    Ler uma tabela de marés portuguesa

Verifica o que leste

Pergunta 1/3

Quantas milhas tem um arco de 1° de latitude?

Caso resolvido: Verificar a agulha e o odómetro antes de uma viagem

Antes de uma viagem costeira, vais verificar os instrumentos. Na carta há um enfiamento de duas marcas em terra com azimute verdadeiro 047°. A declinação da carta, atualizada para o ano, é 1° W. A tabela de desvios da tua agulha dá 1° W para proas perto de 045°. Depois corres uma base medida de 1,0 milha, nos dois sentidos, com o motor sempre no mesmo regime. O odómetro marca 6,0 nós nas duas passagens; num sentido demoras 10 min e no outro 12 min. (Valores do exercício.)

Antes de ler a solução: o que faria?

    Verdadeiro ou falso?

    Decide cada frase antes de ver a resposta.

    1. Identifica cada luz pela característica e, nos setores, pela cor que vês; Portugal está na Região A da IALA.

    2. A posição de estima já inclui a corrente.

    3. Mede abaixo do transdutor, salvo se lhe configuraste um desvio.

    4. Mede a velocidade e a distância através da água; verifica-o numa base medida, nos dois sentidos.

    5. Uma reta na Mercator é uma loxodromia: segues-a com rumo constante e medes a distância na escala de latitudes.

    6. A estima usa a proa e o odómetro; a posição estimada junta a corrente.

    7. Se o plotter mostra muito pormenor quando amplio, a carta é precisa.

    8. Meço a distância na escala de longitudes, em cima da carta.

    9. Do rumo verdadeiro para o da agulha somo a declinação e o desvio.

    10. O odómetro dá a velocidade sobre o fundo.

    11. Uso o mesmo desvio para todas as proas.

    12. Leste +, oeste −. Da agulha para a carta somas; da carta para a agulha subtrais.

    13. A sonda dá a profundidade desde a superfície.

    14. O GPS dá posições em WGS84; confirma o datum da carta e não confies na sobreampliação.

    Exercício: Rumo, estima e posição estimada ao largo de Lisboa

    Exercício sem figura: trabalha numa folha ou numa carta da zona. Partes do ponto A, 38°40,0′N 009°30,0′W, ao largo de Cascais, para o ponto B, 38°28,0′N 009°30,0′W, ao largo e a oeste-noroeste do cabo Espichel. Velocidade através da água: 6 nós. Declinação: 1° W. Tabela de desvios: proa 180° → +2° (2° E). Às 10:00 estás em A e o odómetro marca 23,4.

    Passo a passo

    1. Que distância há de A a B?

      Mostrar a solução

      A e B têm a mesma longitude. Diferença de latitude: 38°40,0′ − 38°28,0′ = 12,0′. Cada minuto de latitude é uma milha: 12,0 milhas.

    2. Qual é o rumo verdadeiro de A para B?

      Mostrar a solução

      Mesma longitude e B mais a sul: segues o meridiano para sul, 180°.

    3. A 6 nós, quantas horas levas de A a B?

      Mostrar a solução

      Tempo = distância ÷ velocidade = 12 ÷ 6 = 2 horas.

    4. Que rumo da agulha governas?

      Mostrar a solução

      Da carta para a agulha SUBTRAIS: rumo da agulha = verdadeiro − declinação − desvio = 180° − (−1°) − (+2°) = 180 + 1 − 2 = 179°. Prova, da agulha para a carta somando: 179 + 2 − 1 = 180°.

    5. Às 11:00 o odómetro marca 29,4. Que distância percorreste através da água?

      Mostrar a solução

      Leitura final − leitura inicial = 29,4 − 23,4 = 6,0 milhas.

    6. Qual é a posição de estima às 11:00?

      Mostrar a solução

      6,0 milhas para sul são 6,0′ de latitude: 38°40,0′ − 6,0′ = 38°34,0′N. A longitude não muda: 009°30,0′W.

    7. Na última hora houve uma corrente para 090° de 1,0 nó. Quantas milhas te deslocou?

      Mostrar a solução

      Deslocamento = velocidade da corrente × tempo = 1,0 × 1 = 1,0 milha, para leste (a corrente nomeia-se para onde corre).

    8. Qual é a posição estimada às 11:00?

      Mostrar a solução

      A corrente leva-te 1,0 milha para leste. A 38°34′N, um minuto de longitude mede cerca de 0,78 milhas, por isso 1,0 milha são cerca de 1,3′. Para leste, a longitude oeste diminui: 009°30,0′ − 1,3′ = 009°28,7′W. Na carta basta traçar 1,0 milha para 090° a partir da estima, medida na escala de latitudes.

    9. Às 11:00, com a proa de agulha 179°, tiras com a agulha de governo o azimute do farol do cabo Espichel: 126°. Que azimute verdadeiro traças?

      Mostrar a solução

      Da agulha para a carta SOMAS, com os sinais: o desvio é o da proa a que vais (proa perto de 180°: +2°) e a declinação é −1°. 126 + 2 − 1 = 127°. Traça a linha de 127° a passar pelo farol: estás algures nela. Compara-a com a posição estimada; se passar longe, desconfia da estima.

    Agora sozinho

    Sem figura. Partes do ponto C, 41°10,0′N 008°50,0′W, ao largo de Leixões, para o ponto D, 41°25,0′N 008°50,0′W, ao largo da Póvoa de Varzim. Velocidade através da água: 5 nós. Declinação: 2° W. Tabela de desvios: proa 000° → −1° (1° W). Às 08:00 estás em C.

    1. Que distância há de C a D?

    2. A 5 nós, quantas horas levas?

    3. Que rumo da agulha governas para o rumo verdadeiro 000°?

    4. Entre as 08:00 e as 09:00 houve uma corrente para 270° de 0,8 nós. Quantas milhas te deslocou?

    5. Qual é a posição estimada às 09:00?

    6. Com a proa de agulha 003°, tiras com a agulha de governo o azimute de uma marca em terra: 095°. Que azimute verdadeiro traças?

    Verificação: 10 perguntas

    Perguntas deste bloco, com a explicação depois de cada resposta.

    Com o Exam Pass: as 34 perguntas deste bloco.

    Para saber mais

    A explicação completa e as lições de cada ponto do programa

    A Terra, a milha e a carta de Mercator

    A Terra é quase uma esfera, um pouco achatada nos polos. O equador divide-a em hemisfério norte e sul. Os meridianos vão de polo a polo, e o meridiano de Greenwich é a origem das longitudes. Medes os arcos em graus e minutos: 1° = 60′.

    A latitude vai de 0° a 90°, para norte ou para sul do equador. A longitude vai de 0° a 180°, para leste ou para oeste de Greenwich. A costa oeste de Portugal continental fica perto dos 9° W.

    Um minuto de latitude mede uma milha náutica (1852 m). Um nó é uma milha por hora. Um minuto de longitude só mede uma milha no equador: à latitude de Lisboa mede cerca de 0,78 milhas, e encolhe para os polos.

    Na carta de Mercator, os meridianos são retas paralelas e as latitudes crescem para os polos. Por isso medes as distâncias na escala de latitudes, à altura da pernada. Uma reta na carta é uma loxodromia: corta todos os meridianos com o mesmo ângulo, e segues-a com um rumo constante.

    • Direções no mar: de 000° a 359°, no sentido dos ponteiros do relógio, a partir do norte. Norte 000°, leste 090°, sul 180°, oeste 270°.
    • Proa: para onde aponta a embarcação. Rumo: a direção que ela segue. Abatimento: o vento empurra-te para sotavento, e o rumo à superfície afasta-se da proa.
    • Distância = velocidade × tempo: 6 nós durante 2 horas são 12 milhas.
    • Escala: a 1:50 000, 1 cm na carta são 500 m. 1:25 000 é uma escala maior do que 1:150 000 e mostra mais pormenor.
    • Das cartas gerais, de pequena escala, às costeiras e aos planos de portos, de grande escala: para entrar num porto, usa a de maior escala.

    A agulha: declinação, desvio e as contas

    A carta trabalha com direções verdadeiras, referidas ao norte verdadeiro. A agulha aponta para o norte magnético e ainda sofre o magnetismo da própria embarcação. Há por isso duas correções.

    A declinação é o ângulo entre o norte verdadeiro e o norte magnético. Depende do lugar e do ano: lê-a na rosa da carta e atualiza-a para o ano em curso com a variação anual indicada. O desvio é o erro causado pelo ferro, pelo motor e pelos aparelhos de bordo. Depende da proa, e lês o valor na tabela de desvios da tua agulha.

    Sinais: leste é mais (+), oeste é menos (−). Da agulha para a carta, SOMAS: rumo verdadeiro = rumo da agulha + desvio + declinação. Da carta para a agulha, SUBTRAIS, pela ordem inversa: rumo da agulha = rumo verdadeiro − declinação − desvio. Com os sinais, subtrair uma correção oeste é somar: 090° − (−2°) = 092°.

    Os azimutes seguem as mesmas contas. Um azimute tirado com a agulha de governo leva o desvio da proa a que vais, não o do azimute. Usada longe de metais e aparelhos, a agulha de mão costuma ter um desvio pequeno; confirma-o num enfiamento. A declinação aplica-se sempre.

    • Verdadeiro ⇄ magnético: declinação. Magnético ⇄ agulha: desvio.
    • Exemplo: rumo da agulha 210°, desvio 3° E, declinação 2° W. Rumo verdadeiro = 210 + 3 − 2 = 211°.
    • Para verificar a agulha, governa ao longo de um enfiamento da carta. Azimute verdadeiro − declinação (com o sinal) = azimute magnético. Magnético − leitura da agulha = desvio dessa proa.
    • Se o desvio que encontras não bate com a tabela, procura metal ou aparelhos novos perto da agulha: telemóvel, ferramentas, altifalantes. Uma bolha na agulha ou uma rosa que prende pedem revisão; a compensação é trabalho de um compensador.

    Saber onde estás: estima, corrente e linhas de posição

    A navegação estimada começa num ponto conhecido, com hora. Com a proa verdadeira e a distância do odómetro, traças a posição de estima. A posição de estima não inclui a corrente.

    Para a posição estimada, juntas a corrente. A partir da estima, traças a direção para onde a corrente corre e a distância que te desloca (velocidade × tempo). Uma corrente de 1 nó para 090° durante 1 hora desloca-te 1 milha para leste.

    A confiança na posição diminui com o tempo desde a última posição observada: os erros de proa, de odómetro, de abatimento e de corrente vão-se somando. Perto da costa, confirma sempre com linhas de posição: um enfiamento, um azimute, uma distância ou uma batimétrica. Duas linhas cruzadas perto de 90° dão uma posição; uma terceira dá a verificação.

    Na navegação costeira e em águas restritas, a navegação visual é a tua melhor ferramenta. Um enfiamento não tem os erros da agulha nem os do GPS. Usa o plotter para confirmar o que vês, não para o substituir.

    • Faróis: identifica-os pela característica, com ritmo, cor e período. Fl: relâmpagos. Oc: ocultações, com a luz mais longa do que a escuridão. Iso: luz e escuridão iguais. Q: relâmpagos rápidos. Exemplo: Fl(3) 15s.
    • Luzes de setores: os limites estão em azimutes verdadeiros tomados do mar. A cor que vês diz-te em que setor estás. Nunca navegues sobre o limite de um setor.
    • Balizagem: Portugal está na Região A da IALA. Ao entrar vindo do mar, encarnado a bombordo e verde a estibordo. Cardeais: norte Q ou VQ contínuo; leste Q(3) ou VQ(3); sul Q(6)+LFl ou VQ(6)+LFl; oeste Q(9) ou VQ(9).
    • Erros comuns: ler a recíproca (180° ao contrário), trocar o sinal da declinação, medir na escala de longitudes, esquecer a hora de verão, introduzir mal um waypoint.

    Instrumentos: odómetro, GPS, cartas eletrónicas e sonda

    O odómetro mede a velocidade e a distância através da água. Verifica-o numa base medida, de distância conhecida: percorre-a nos dois sentidos, com o motor no mesmo regime, e cronometra. A média das duas velocidades sobre o fundo anula uma corrente constante e dá a velocidade real através da água; compara-a com o odómetro.

    O GPS dá posições com poucos metros de erro a céu aberto. Uma má geometria dos satélites (HDOP alta), o multitrajeto junto a estruturas altas, interferências e uma antena mal instalada podem piorá-las sem aviso claro. Um algarismo mal introduzido num waypoint põe-no a milhas.

    As posições do GPS estão normalmente em WGS84. Confirma nas notas da carta o datum dela. Se a carta indicar uma translação para posições obtidas por satélite, aplica-a antes de marcar a posição. Nas cartas eletrónicas, ampliar além da escala dos dados (sobreampliação) não acrescenta pormenor, e com a imagem reduzida podem desaparecer rochas pequenas.

    A sonda mede o tempo de ida e volta do som e dá a profundidade abaixo do transdutor, salvo se lhe configurares um desvio para a quilha ou para a superfície. Verifica-a com um prumo de mão, no mesmo sítio, ou num ponto conhecido: sonda da carta mais altura de maré.

    • Fator de correção do odómetro = distância real ÷ distância do odómetro. Exemplo: 9,0 ÷ 10,0 = 0,9.
    • Carta raster: imagem digitalizada de uma carta. Carta vetorial: cada elemento guardado como dados. A ENC é a carta vetorial oficial; a maioria dos plotters de recreio usa cartas privadas feitas a partir de dados oficiais.
    • Verifica a rota no plotter com várias ampliações e leva carta em papel atualizada da tua zona.
    • Na esteira ou com mar picado, as bolhas de ar debaixo do transdutor dão leituras erráticas na sonda.

    Lições deste bloco

    A3 Forma e dimensões da Terra; latitude e longitude; milha e nó; proa, rumo e abatimento; medição de distâncias e velocidades
    A4 Cartas de navegação; carta de Mercator, escalas e classificação; derrota loxodrómica; linhas de posição: enfiamento, alinhamento, azimute, distância, batimétrica
    A5 Odómetros; verificação do seu funcionamento
    A6 Magnetismo terrestre; declinação e desvio; agulhas de mão e de governo; tabelas de desvio; verificação de uma agulha
    A8 Navegação estimada, costeira e em águas restritas; efeitos das correntes; confiança na posição; navegação visual; erros em navegação

    Fontes

    Revisto : Chartwork numbers recomputed and checked against Portaria 288/2000 (anexo 1, A3–A8, A11–A12), IALA R1001 Região A and real positions off Lisboa and Leixões; AI review, not a licensed human examiner.